A HERANÇA QUE VEM DAS MARÉS

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Licia Melo

2/16/20262 min read

A HERANÇA QUE VEM DAS MARÉS

Desenvolvimento, economia azul e o protagonismo feminino na pesca artesanal de Sergipe.

Em Sergipe, falar de desenvolvimento sem mencionar a pesca artesanal é ignorar uma das engrenagens mais antigas e resilientes da economia local. Do litoral às margens do Rio São Francisco, milhares de famílias dependem do mar, dos rios e dos manguezais para garantir renda, dignidade e segurança alimentar.

A pesca artesanal não é apenas atividade econômica — é herança cultural, é identidade coletiva, é sobrevivência que atravessa gerações.

🌊 Onde a maré dita o tempo

Em São Cristóvão, às margens do Rio Vaza-Barris, marisqueiras enfrentam a lama do mangue, o sol intenso e jornadas exaustivas para coletar sururu, ostra, aratu e caranguejo.

Ali, não existe relógio de ponto.
Existe maré.

Cada subida e descida das águas determina o ritmo do trabalho. O esforço começa antes do amanhecer e muitas vezes só termina ao entardecer, quando baldes cheios representam o sustento do dia.

Não há expediente fixo — há resistência.

👩🏾‍🌾 Mulheres que movem a economia azul

A pesca artesanal em Sergipe tem rosto feminino.

As marisqueiras representam a base invisível da cadeia produtiva. São elas que coletam, limpam, beneficiam e comercializam o pescado. Muitas também lideram associações comunitárias, organizam cooperativas e sustentam suas famílias quase sozinhas.

Municípios como:

  • Brejo Grande

  • Neópolis

  • Propriá

  • Pirambu

  • Barra dos Coqueiros

  • Estância

  • Itaporanga d'Ajuda

mantêm forte dependência da atividade pesqueira para geração de renda e garantia de alimento na mesa.

Quando falamos em economia azul, falamos dessas mulheres. Falamos de sustentabilidade, de trabalho tradicional e de uma cadeia produtiva que ainda carece de visibilidade e políticas públicas estruturantes.

⚠️ Desafios que ameaçam a tradição

Apesar da importância econômica e social, o setor enfrenta desafios urgentes:

  • Poluição dos rios e manguezais

  • Pesca predatória

  • Mudanças climáticas

  • Informalidade e ausência de proteção social adequada

O manguezal é berçário natural de espécies marinhas. Sua preservação não é pauta ambiental isolada — é estratégia econômica e social.

Valorizar a pesca artesanal é investir em:

✔ Desenvolvimento sustentável
✔ Economia solidária
✔ Segurança alimentar
✔ Justiça social

🌅 Entre redes e resistência

Entre redes lançadas ao amanhecer e baldes carregados ao entardecer, existe uma força que não aparece nas estatísticas como deveria:

A força da mulher na pesca.

São elas que sustentam a base da economia pesqueira sergipana. São elas que transformam lama em alimento, esforço em renda e tradição em futuro.

Em Sergipe, desenvolvimento verdadeiro começa na base.
E essa base tem cheiro de mar, lama de mangue e nome de mulher.

Lícia Melo
Jornalista e Empreendedora Social | Hubmark